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Podemos
nos referir a um animal como "exemplo de ética", mas é nossa
significação sobre o mesmo que lhe atribui tal qualidade: não é que o animal
não respeite pactos de convivência, mas não lhes atribui um valor moral, nem
escolhe agir assim ou assado. Talvez os chimpanzés e os gorilas, mas isso é
assunto para um estudo antropológico de outra dimensão, considerando nossas
origens em comum.
É
importante lembrar que ética é ação,
um processo dialético em atualização constante (pensar, escolher, interagir,
avaliar, "tudo ao mesmo tempo agora" em "uma coisa de cada
vez"). "É que efetivamente o Ser humano não é um contemplativo,
e sim um ativo. E não é pela
contemplação que entra em contato com o mundo exterior, mas pela ação. (...)
em todos os casos há sempre uma ação,
por rudimentar que seja, e um pensamento,
por mais elementar que se possa considerá-lo" (Caio Prado Junior).
Isso quer dizer que os "dez mandamentos", os "Yamas e Nyamas",
o "juramento de Hipócrates" ou o do PCC, assim como os ditos
populares só adquirem seu verdadeiro sentido no aqui-agora, que deve ser
entendido não como "slogan de marketing político" ou "grito de
guerra" dos jovens de um outro tempo, mas como realidade inescapável dos
nossos atos, já que estes tornam-se abstrações, antes ou depois, no ato
presente de pensar, no refletir como ato. Ato de um corpo que como nos diz o
poeta Walt Withman "inclui e é a significação, a idéia-mestra, e inclui
e é a alma".
Mais
do que em atos, na verdade a ética se realiza em atitudes e interação, o que
envolve uma tomada de posição em relação a algo. Por exemplo, o ato de (...)
massagear alguém pode realizar-se com uma atitude de serenidade, descaso,
fluidez, tonificação, sedação, devoção, compaixão, racionalização,
contato superficial, profundo, enfatizando a sensação, a técnica, etc. Ou
seja, na conjunção de circunstâncias externas e impulsos internos do indivíduo,
no momento atual, uma decisão quanto ao modo
de interagir é tomada (por mais inconsciente que esta seja). Falamos da intenção
da ação. Da intenção como ação.
Pode
parecer enfadonha e interminável essa cadeia de pensamentos, mas quanto mais
consciência uma pessoa tem a respeito da sua condição no mundo (como ser
humano, cidadão, membro de um grupo ideológico, profissional ou familiar),
maior é a sua responsabilidade diante das questões que essa condição
engloba, e dessa forma a reflexão sobre essas questões e sobre si mesma
torna-se necessária.
Como
terapeutas não podemos - ou podemos? (toca
o sino tibetano)
Como
terapeutas, segundo nosso ponto de vista, não podemos nos furtar à busca de
uma compreensão maior do contexto histórico e social em que vivemos, porque a
ética de um terapeuta - assim como a do médico, do artista, do educador, do
político, de todo aquele que se reconhece como cidadão
- não se limita apenas a conhecer e respeitar um número de regras de conduta
que constituem um código estabelecido, Amém. É necessário questioná-las em
sua atual significação, e por vezes tomar atitudes que as coloquem em xeque
(e não cheque...) para não correr o "cômodo risco" de auxiliar
na "cura em termos" de indivíduos (incluindo a nós mesmos) dentro de
uma sociedade doente, e usar o código de ética de uma categoria profissional
como escudo ou cortina para justificar a conivência com a banalização de
valores morais, as pequenas conveniências e vaidades, a própria alienação
frente à situação do mundo.
Ainda
assim, sempre há o argumento da relatividade das interpretações do mundo...
do qual somos pontos reflexos e base para novos caminhos.
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