Corpo, porta do Paraíso?

  Para muitos terapeutas corporais, a descoberta do corpo como foco de terapia pintou como uma espécie de reencontro do paraíso perdido. Passada a euforia, sobra a questão: na terapia baseada no corpo, o que é realmente psicologia e o que não passa de fé religiosa?    

 

Por Ana Verônica Mautner
Psicóloga Clínica           

            Eu acho que houve, nas terapias corporais, 3 tempos marcados: a descoberta, a decepção e a reavaliação. Gostaria de contribuir aqui com algumas reflexões para este tempo de reavaliação.
            A descoberta do corpo como foco de terapia foi extremamente fascinante. Era até como se o corpo tivesse permanecido embaixo dos véus. A gente vai retirando os véus e de repente, descobre que o corpo é uma porta, uma maravilhosa via de acesso ao inconsciente. e você fica tão fascinado que não vê mais nada. Você só quer tocar, entender, mudar este corpo que contém em si toda a sua vida emocional. Parece que este corpo, hoje tão estudado no Ocidente, e há milhares de anos no Oriente, vai me revelar enfim todo o mistério do homem e da ciência.
            Você se inebria e vê ressurgir em você essa coisa fantástica que é a fé. Dessa fé vão brotando expressões quase religiosas como: “é natural”; “é simples”; “como é que a gente não tinha descoberto antes!” E voce se inebria com a sensação onipotente de que, através de seu corpo, você tem agora todo o conhecimento do mundo nas mãos, e passa a explorar este potencial. Você fica estudando alimentação: “o homem é aquilo que ele come!” Depois estuda anatomia, depois fisiologia. Depois passa para a meditação. Depois tenta o ruído, depois a droga, aí larga a droga e tenta a massagem. Faz todos os experimentos possíveis de manipulação do corpo. Sempre tendo em visita a auto-regulação, a tentativa de se conduzir e se bastar a si próprio: “eu comigo mesmo, vou sugar toda a sabedoria e toda a energia do mundo, de modo que não precise de mais ninguém.”.
            Tudo isso, é claro, baseado em Reich. Só que Reich morreu em 1957 e sua teoria foi-se diluindo pelos mais diferentes grupos. E muitos dos seus seguidores foram caindo nesta estranha defesa de auto-suficiência e da solidão, apaixonada preparação para a pura auto-realização, na exacerbação do individualismo em detrimento das grandes lutas comunitárias, que eram, aliás, uma grande preocupação do próprio Reich. Os movimentos comunitários que surgiram neste campo são na prática apenas movimentos puramente ecológicos, onde a interação entre pessoas só entra para que a individualidade seja melhor desenvolvida.
            O que é que tenho contra a individualização? Nada. Creio até que,diante da crise que a gente está vivendo, ela pode até parecer uma saída. Só que esta tendência para a auto-realização individual acima de tudo precisa ser melhor explicitada e assumida. Neste ponto, aliás, as terapias corporais não significaram uma ruptura, mas a simples exacerbação de uma tendência ao individualismo que já estava no ar: já que não tem saída mesmo, o negócio é sobreviver da forma mais prazerosa possível. E os movimentos comunitários, no fim, se tornam mais uma reunião de interesses pessoais do que de lutas em comum.

 Muda a alimentação, o que acontece?

             Outro problema das terapias corporais é que elas descambam facilmente ou para o místico ou para o cientificismo  (ou se tem fé ou se exige a prova de tudo). Ou temos uma fé cega no simples e no natural, sem provas, por pura intuição, ou então recorre-se a uma ciência vizinha – a fisiologia, a anatomia, a nutrição. Os anéis de tensão reichianos, por exemplo, são uma idéia nova. Ou foram, lá por 1940. E tudo bem. Só que para se impor hoje, a terapia corporal teve que tomar uns ares de anatomia, curvar-se perante a fisiologia, respeitar a fisioterapia – ou então usa-se a psicopatologia já existente, a máquina de fotografar a aura, as novas técnicas de massagem e não sei o quê. São provas totalmente inúteis para o processo psicoterapêutico em si. E, ávido assim de conhecimentos advindos de outras áreas, o terapeuta corre o risco de se perder no próprio objeto que é o processo psíquico.
            O fato é que o psicoterapeuta corporal, perdido às vezes entre todas as ciências e todos os caminhos da fé oriental e ocidental, já que não sabe mais onde está a emoção e o conflito psíquico. Ele então descobre Reich, descobre a esquerda, descobre a idéia de comunidade, o corpo, a anatomia, a massagem, o exercício, a meditação; descobre os chacras, as várias formas de movimento, a influência da nutrição, a saúde, a doença, a força de vontade. Descobre, enfim, uma imensa teia de aranha, dentro da qual imagina que vai explicar tudo, já que sabe tudo.
            
No Entanto nesta busca ansiosa de sempre uma luzinha a mais, este terapeuta corre o risco de se perder em novas descobertas, tão fascinantes quanto inúteis para uma psicoterapia a sério. Então surge, por exemplo, uma terapeuta inglesa, que tem o maior interesse por operações espirituais e experimentos insólitos. No fim ela levava até o cabelo da gente para examinar numa determinada máquina, e aí dava um diagnóstico, a partir de um fio de cabelo. Ora, isso pode ser até curioso, mas é desnecessário, uma vez que existem médicos para fazer diagnósticos e, fundamentalmente, isso não é psicoterapia, é outra coisa, mais próxima da superstição. Eu não sei se existe operação espiritual ou não, mas sei que isso não tem nada a ver com a minha profissão e com o que os pacientes esperam de mim. Eu posso me interessar por reencarnação, cerâmica, natação, meditação, mas isso não tem nada a ver com o meu trabalho terapêutico dentro do meu consultório. E o pior é que esses conhecimentos todos ficam dando a impressão de que fazem parte do trabalho terapêutico específico. E não têm nada a ver. O homem é aquilo que come? Tudo bem. Devo parar de comer açúcar? Tudo bem. Mas o que eu não posso é ficar enchendo meu paciente de recomendações, como se elas fossem essencialmente terapêuticas: pare de comer açúcar que dá depressão, não sente nesta postura, não respire assim. De repente todo psicoterapeuta é fisioterapeuta sem o ser, é um técnico em respiração sem a devida preparação, e assim por diante.
            Há coisas importantes que o terapeuta precisa ter sempre em mira no seu campo específico, que é o processo psicoterapêutico em si: como ocorre a transferência, como trabalhar as resistências do paciente num determinado contexto, ou pesquisar a própria eficácia das técnicas psicológicas aplicadas, o próprio funcionamento do aparelho psíquico. O que ele não pode é ficar imaginando: “mudando a alimentação do meu paciente – oba, oba – vai acontecer alguma coisa”. Isso já não é psicoterapia, é a busca do milagre. Eu não tenho nada contra mudar de alimentação, mudar a coluna e o jeito de sentar. Só que coluna é coluna, comida é comida e tudo influi um pouco em tudo. E é muito interessante ter uma visão total do homem, mas nem por isso se deve cair na fantasia de achar que uma nova descoberta qualquer pode vir a ser, enfim, o único caminho. Aí a salvação vai virando uma confusa mistura de ciência com magia. 

A velha busca do paraíso perdido 

            Agora, é de fato uma válida porta de acesso ao inconsciente. Ele contém mesmo informações úteis ao terapeuta, não é só pela livre associação, pelo sonho e pelos atos falhos que se chega ao inconsciente. A leitura corporal, a observação dos gestos esteriotipados, dos movimentos, das deformações musculares, trazem dados fundamentais a respeito do psiquismo do sujeito. Daí você querer mudar tudo, a partir da mudança de alimentação ou de posição da coluna... Isso já é magia. É preciso reconhecer que o terapeuta corporal tem técnicas novas, uma nova abordagem, um outro método de contato com o paciente. Mas é bom lembrar também que ele não rompeu com o sistema. Ele continua trabalhando em consultórios, tem tantas sessões por semana, faz eventualmente um trabalho educacional, mas tudo isso a psicanálise também faz. Não há nada de radicalmente novo. De novo apenas a leitura do corpo como outro acesso ao inconsciente, e o próprio corpo como espaço para a reconstrução das defesas psíquicas.
            Um outro mito de certa terapia corporal, diz respeito à perfeição da natureza. Aquela idéia de que o recém-nascido sim é que é perfeito. É aquele ser que não recebeu ainda os estigmas da deformação social. O social é um horror. Ora, o recém-nascido não é lá estas coisas. Não sabe se alimentar, não sabe deglutir; deixado sozinho em 3 ou 4 horas, é capaz de morrer. Mas para certos místicos, a natureza, o recém-nascido, são perfeitos. Imperfeito é o desenvolvimento do homem, porque será inevitavelmente feito através do contato social, que é impuro. É o contato social que vai estruturar o caráter já é deformação, não é aquela coisinha bonitinha, roliça, que é o recém-nascido.
            Ora, é bom lembrar que a natureza não é só bonita. Um piolho não é bonit, e é absolutamente natural.E nem no próprio corpo humano tudo é prazer. Os terapeutas corporais gostam muito de lembrar, por exemplo, que o sistema nervoso simpático é aquele que produz a tensão. Então a terapia corporal simpatiza, digamos com o parassimpático, que é o da expansão. Agora diga-me: o sistema simpático é anti-natural? E tensão em certos casos não é uma defesa saudável? E natural?
            Esse endeusamento da natureza humana, do natural, desenvolve ainda um outro mito. O mito de que existe uma natureza humana que é certa. O que é uma coisa muito normativa: você tem que ser deste jeito, o resto é desvio, e os desvios devem ser evitados para que a natureza humana brilhe em seu apogeu. Ninguém afirma, mas fica no ar que existe um corpo melhor que outro, um corpo normal, de uma natureza normal, de um estilo de vida normal. Existe um certo, onde precisa se enquadrar. Então, o corpo bom é aquele que... O braço bom é aquele que... Pulmão bom é aquele que... Será, pulmão bom pra quê? O pulmão do alpinista não será um desperdício no corpo do relojoeiro? E para que o alpinista precisa da paciência do relojoeiro? Então um corpo é bom pra quê? Ora, a natureza humana é também uma visão ideológica. É uma visão retrógrada, normativa, autoritária. Ou só é autoritário o normativo dos outros?, não o de alguns terapeutas corporais, que tem em si a súmula de toda a ciência ocidental e da sabedoria do oriente?
            No fundo, o que há por trás disso é a velha busca do paraíso perdido, da natureza pura, antes das deformações sociais. Em tempos de grandes dificuldades, é especialmente fascinante este mito da volta a algum paraíso. A diferença é que agora, em certas terapias corporais, o mito tem jeito de ciência. É um mito com jeito de ciência, de realidade. Porque o terapeuta corporal, desde Reich tem um grande apego ao concreto – pelo corpo, pelo gesto, pela postura. O diagnóstico é feito no concreto. É no perceptível, é no visível, no palpável que se acompanha a mudança do paciente. É no aparecimento dos movimentos orgásticos e na recuperação da potência orgástica que se percebe a cura. É sempre concreto, sempre corpo nas três etapas: diagnóstico, processo e cura. Fica tudo concentrado no concreto. Tudo se passa como se o universo simbólico, que é especificamente humano, desaparecesse. Como se no faz-de-conta, as analogias, os sinais, os símbolos complicados ( como os mitos, por exemplo) não existissem mais no mundo, e nada significassem. Um sonho em que o paciente passa por sensações de altos e baixos será concretamente visto como medo de altura ou sensação de queda, não fantasias de céu ou de infinito.
            Ora, essa fixação na concretitude é também ela, uma fantasia, porque é claro que o corpo que nós estamos trabalhando também é um corpo simbólico. A própria idéia da natureza humana é uma coisa altamente simbólica – por acaso ela existe? Mas a fantasia de certa terapia corporal, é que estamos trabalhando, só com o concreto, o organismo, diretamente, enquanto os outros trabalham a reorganização simbólica do paciente, o vago mundo das palavras, do qual o corpo vagamente faz parte. Quero deixar claro, que esta não é uma posição contra a terapia corporal e repito que o corpo é também uma porta útil para o trabalho com o mundo do inconsciente. Eu não acredito é nos mitos da terapia corporal. No mito do corpo concreto. Pois o corpo concreto é simbólico – nós não trabalhamos com o orgânico, não somos médicos, fisioterapeutas ou fisiologistas -, não o trabalhamos com o corpo erótico, social, econômico, produtivo, este é o nosso corpo. Não acredito também no mito da natureza humana como paraíso perdido. Nem que a terapia corporal seja, como se diz, mais rápida do que as outras. É, isso sim, uma psicoterapia eficiente, completa, quando bem feita. 

A vida, depois das catorze voltas com o olho 

            Mas nada de arrebatamentos. Como terapeuta corporal, o meu objetivo é o de todas as terapias. Eu quero diminuir o sofrimento, aumentar o auto-conhecimento, possibilitar a auto-regulação do paciente. Esta capacidade de maior adequação é, aliás, uma característica do ser humano social, solidário, capaz de trabalhar junto, capaz de se auto-regular, mas que também se deixa regular pelo outro.
            Os terapeutas corporais mostram-se bastante descuidados em seu discurso, em suas elaborações teóricas. Ora é preciso refletir sobre os fatos, porque o discurso é a expressão de uma atitude e reflui sobre a técnica empregada, na maneira como se trabalha. Os textos sobre terapia corporal são descuidados e os autores freqüentemente não observam, eles descobrem. Estão sempre perplexos diante do óbvio que nunca tinha sido visto antes. O resultado é uma sucessão de descobertas e uma ausência de reflexão teórica. Uma análise mais cuidadosa destes textos indica apelos normativos, uma aceitação incondicional de pressupostos muito discutíveis como, por exemplo, a excelência do natural, a utilidade da regressão, o saudável da auto-regulação, etc.
            Gostaria que ficasse claro que não estou falando do que acontece nas sessões em si. Refiro-me a livros, aos artigos e às poucas sessões públicas a que assisti. Estou falando daquela fé absoluta que os textos de terapia corporal demonstram, de que vão liberar, libertar. Uma certeza absoluta de que seguindo certa técnica – liberando anéis, melhorando as formas de expressão das emoções, tirando a rigidez, as esteriotipias corporais – você realmente vai-se auto-regular, vai ser o autor da sua própria existência, agente único de si próprio.
            É claro que todo profissional precisa acreditar no seu trabalho, sentir que de fato está ajudando o paciente a melhorar a sua percepção do mundo interno e externo. Isso é muito diferente de você dizer: vou melhorar a sua percepção do mundo fazendo você da catorze voltas com o olho. Quem dá catorze voltas com o olho, enxerga a vida melhor. Isso é ser normativo e místico. E este mal-entendido muito freqüente na terapia corporal. Nela, o terapeuta trabalha com sinais e não com símbolos, como acontece nas outras formas de terapia. O terapeuta corporal trabalha com sinais concretos: o corpo com tais tipos de tensão é ruim. Se o paciente não dá tais ou tais tipos de flexibilidade, não dá sinais concretos de mudança. Ora, isso é ter a fôrma do certo, independente do desejo do paciente. Esse é o perigo, o terapeuta corporal com um sinal físico. Não trabalha com a realidade simbólica do paciente, que é pessoal, única de cada um.
            E quando esta terapia, tão cheia de promessas, não dá certo? E se as promessas de encontrar o paraíso através do corpo não são cumpridas? Bem, aí a culpa é do paciente. Se você não melhorou, é porque não fez tudo direitinho como eu queria. É porque você é muito resistente. E o paciente vai embora, cheio de culpa, porque não fez as coisas direito, não chegou às catorze voltas com o olho ou não conseguiu respirar como devia, vibrar como devia, postar-se como o exigido.
            Continuo acreditando que a terapia corporal é uma da melhores formas de terapia. Mas ela é apenas um caminho, não pode se transformar numa religião, com sinais físicos de salvação, com uma certeza tão absoluta de que o paraíso perdido está logo ali no fim de alguns exercícios, numa natureza humana enfim liberada, renascida.

 Aqui e agora.
No Brasil, em 1983?

 Quero lembrar enfim que há muito de pura ideologia em posições aparentemente científicas. Veja o caso do aqui e agora. Viver no aqui e no agora é um dos grandes sonhos da terapia corporal, e não só dela. Nada de viver no passado, nem no futuro, mas no aqui e no agora: here and now! Ora, onde é que, ideologicamente, poderia ter surgido este slogan? Num país hegemônico, é claro. Na Roma hegemônica, na Inglaterra hegemônica ou nos Estados Unidos hegemônico de hoje. Porque a pessoa ou a cultura que ainda não é hegemônica, não está interessada em para no aqui e no agora, ela quer é continuar. Quando alguém está em decadência, também não pensa em continuar. Quer dizer, o único grupo interessado no aqui e no agora é que está no apogeu.
Ora, aqui e agora no Brasil, nós não estamos no apogeu. Para que queremos o aqui e o agora? Para que a França, que está em decadência vai querer? Então a gente engole um aqui e agora que não tem nada a ver com a nossa realidade. Nos Estados Unidos tem sentido. Em 1950, 1960, eles estavam no auge. Mas escute: e eu com isso?. Eu aqui no Brasil em 1983? Com o país do jeito que está eu não quero o aqui e o agora, eu quero o amanhã. E a gente pega os slogans dos outros com tranqüilidade, inocência, como se eles fossem destituídos de ideologia. As coisas nunca surgem gratuitamente. As idéias de autogestão, auto-realização, auto-regulação. Isso é próprio de lugares onde você tem uma abundância fantástica, onde você não precisa do esforço comunitário para conseguir nada. Agora, num lugar onde existe escassez, o trabalho tem que ser de solidariedade. Nossa realidade atual não é de abundância. E eu tenho muito interesse no futuro. O aqui e o agora do Brasil são muito opressivos. O “here and now” pode ter muito sentido para um espaço, um grupo e um momento determinado. E longe de mim dizer que tudo o que é americano é ruim. O que é americano é bom para eles, algumas coisa são boas para nós, inclusive a terapia corporal, uma vez limpa de suas próprias mistificações. 

Texto retirado da Revista Psicologia Atual, Ano VI, nº 33, pgs. 29-31. 
Ana Verônica Mautner é  psicóloga clínica, coordenadora da área de terapias de abordagem corporal no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo

 


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