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Eu
acho que houve, nas terapias corporais, 3 tempos marcados: a descoberta, a decepção
e a reavaliação. Gostaria de contribuir aqui com algumas reflexões para este
tempo de reavaliação.
A descoberta do corpo como foco de terapia foi extremamente fascinante.
Era até como se o corpo tivesse permanecido embaixo dos véus. A gente vai
retirando os véus e de repente, descobre que o corpo é uma porta, uma
maravilhosa via de acesso ao inconsciente. e você fica tão fascinado que não
vê mais nada. Você só quer tocar, entender, mudar este corpo que contém em
si toda a sua vida emocional. Parece que este corpo, hoje tão estudado no
Ocidente, e há milhares de anos no Oriente, vai me revelar enfim todo o mistério
do homem e da ciência.
Você se inebria e vê ressurgir em você essa coisa fantástica que é a
fé. Dessa fé vão brotando expressões quase religiosas como: “é
natural”; “é simples”; “como é que a gente não tinha descoberto
antes!” E voce se inebria com a sensação onipotente de que, através de seu
corpo, você tem agora todo o conhecimento do mundo nas mãos, e passa a
explorar este potencial. Você fica estudando alimentação: “o homem é
aquilo que ele come!” Depois estuda anatomia, depois fisiologia. Depois passa
para a meditação. Depois tenta o ruído, depois a droga, aí larga a droga e
tenta a massagem. Faz todos os experimentos possíveis de manipulação do
corpo. Sempre tendo em visita a auto-regulação, a tentativa de se conduzir e
se bastar a si próprio: “eu comigo mesmo, vou sugar toda a sabedoria e toda a
energia do mundo, de modo que não precise de mais ninguém.”.
Tudo isso, é claro, baseado em Reich. Só que Reich morreu em 1957 e sua
teoria foi-se diluindo pelos mais diferentes grupos. E muitos dos seus
seguidores foram caindo nesta estranha defesa de auto-suficiência e da solidão,
apaixonada preparação para a pura auto-realização, na exacerbação do
individualismo em detrimento das grandes lutas comunitárias, que eram, aliás,
uma grande preocupação do próprio Reich. Os movimentos comunitários que
surgiram neste campo são na prática apenas movimentos puramente ecológicos,
onde a interação entre pessoas só entra para que a individualidade seja
melhor desenvolvida.
O que é que tenho contra a individualização? Nada. Creio até
que,diante da crise que a gente está vivendo, ela pode até parecer uma saída.
Só que esta tendência para a auto-realização individual acima de tudo
precisa ser melhor explicitada e assumida. Neste ponto, aliás, as terapias
corporais não significaram uma ruptura, mas a simples exacerbação de uma tendência
ao individualismo que já estava no ar: já que não tem saída mesmo, o negócio
é sobreviver da forma mais prazerosa possível. E os movimentos comunitários,
no fim, se tornam mais uma reunião de interesses pessoais do que de lutas em
comum.
Muda
a alimentação, o que acontece?
Outro
problema das terapias corporais é que elas descambam facilmente ou para o místico
ou para o cientificismo (ou se tem
fé ou se exige a prova de tudo). Ou temos uma fé cega no simples e no natural,
sem provas, por pura intuição, ou então recorre-se a uma ciência vizinha –
a fisiologia, a anatomia, a nutrição. Os anéis de tensão reichianos, por
exemplo, são uma idéia nova. Ou foram, lá por 1940. E tudo bem. Só que para
se impor hoje, a terapia corporal teve que tomar uns ares de anatomia, curvar-se
perante a fisiologia, respeitar a fisioterapia – ou então usa-se a
psicopatologia já existente, a máquina de fotografar a aura, as novas técnicas
de massagem e não sei o quê. São provas totalmente inúteis para o processo
psicoterapêutico em si. E, ávido assim de conhecimentos advindos de outras áreas,
o terapeuta corre o risco de se perder no próprio objeto que é o processo psíquico.
O fato é que o psicoterapeuta corporal, perdido às vezes entre todas as
ciências e todos os caminhos da fé oriental e ocidental, já que não sabe
mais onde está a emoção e o conflito psíquico. Ele então descobre Reich,
descobre a esquerda, descobre a idéia de comunidade, o corpo, a anatomia, a
massagem, o exercício, a meditação; descobre os chacras, as várias formas de
movimento, a influência da nutrição, a saúde, a doença, a força de
vontade. Descobre, enfim, uma imensa teia de aranha, dentro da qual imagina que
vai explicar tudo, já que sabe tudo.
No
Entanto nesta busca ansiosa de sempre uma luzinha a mais, este terapeuta corre o
risco de se perder em novas descobertas, tão fascinantes quanto inúteis para
uma psicoterapia a sério. Então surge, por exemplo, uma terapeuta inglesa, que
tem o maior interesse por operações espirituais e experimentos insólitos. No
fim ela levava até o cabelo da gente para examinar numa determinada máquina, e
aí dava um diagnóstico, a partir de um fio de cabelo. Ora, isso pode ser até
curioso, mas é desnecessário, uma vez que existem médicos para fazer diagnósticos
e, fundamentalmente, isso não é psicoterapia, é outra coisa, mais próxima da
superstição. Eu não sei se existe operação espiritual ou não, mas sei que
isso não tem nada a ver com a minha profissão e com o que os pacientes esperam
de mim. Eu posso me interessar por reencarnação, cerâmica, natação, meditação,
mas isso não tem nada a ver com o meu trabalho terapêutico dentro do meu
consultório. E o pior é que esses conhecimentos todos ficam dando a impressão
de que fazem parte do trabalho terapêutico específico. E não têm nada a ver.
O homem é aquilo que come? Tudo bem. Devo parar de comer açúcar? Tudo bem.
Mas o que eu não posso é ficar enchendo meu paciente de recomendações, como
se elas fossem essencialmente terapêuticas: pare de comer açúcar que dá
depressão, não sente nesta postura, não respire assim. De repente todo
psicoterapeuta é fisioterapeuta sem o ser, é um técnico em respiração sem a
devida preparação, e assim por diante.
Há coisas importantes que o terapeuta precisa ter sempre em mira no seu
campo específico, que é o processo psicoterapêutico em si: como ocorre a
transferência, como trabalhar as resistências do paciente num determinado
contexto, ou pesquisar a própria eficácia das técnicas psicológicas
aplicadas, o próprio funcionamento do aparelho psíquico. O que ele não pode
é ficar imaginando: “mudando a alimentação do meu paciente – oba, oba –
vai acontecer alguma coisa”. Isso já não é psicoterapia, é a busca do
milagre. Eu não tenho nada contra mudar de alimentação, mudar a coluna e o
jeito de sentar. Só que coluna é coluna, comida é comida e tudo influi um
pouco em tudo. E é muito interessante ter uma visão total do homem, mas nem
por isso se deve cair na fantasia de achar que uma nova descoberta qualquer pode
vir a ser, enfim, o único caminho. Aí a salvação vai virando uma confusa
mistura de ciência com magia.
A velha busca do paraíso perdido
Agora,
é de fato uma válida porta de acesso ao inconsciente. Ele contém mesmo
informações úteis ao terapeuta, não é só pela livre associação, pelo
sonho e pelos atos falhos que se chega ao inconsciente. A leitura corporal, a
observação dos gestos esteriotipados, dos movimentos, das deformações
musculares, trazem dados fundamentais a respeito do psiquismo do sujeito. Daí
você querer mudar tudo, a partir da mudança de alimentação ou de posição
da coluna... Isso já é magia. É preciso reconhecer que o terapeuta corporal
tem técnicas novas, uma nova abordagem, um outro método de contato com o
paciente. Mas é bom lembrar também que ele não rompeu com o sistema. Ele
continua trabalhando em consultórios, tem tantas sessões por semana, faz
eventualmente um trabalho educacional, mas tudo isso a psicanálise também faz.
Não há nada de radicalmente novo. De novo apenas a leitura do corpo como outro
acesso ao inconsciente, e o próprio corpo como espaço para a reconstrução
das defesas psíquicas.
Um outro mito de certa terapia corporal, diz respeito à perfeição da
natureza. Aquela idéia de que o recém-nascido sim é que é perfeito. É
aquele ser que não recebeu ainda os estigmas da deformação social. O social
é um horror. Ora, o recém-nascido não é lá estas coisas. Não sabe se
alimentar, não sabe deglutir; deixado sozinho em 3 ou 4 horas, é capaz de
morrer. Mas para certos místicos, a natureza, o recém-nascido, são perfeitos.
Imperfeito é o desenvolvimento do homem, porque será inevitavelmente feito
através do contato social, que é impuro. É o contato social que vai
estruturar o caráter já é deformação, não é aquela coisinha bonitinha,
roliça, que é o recém-nascido.
Ora, é bom lembrar que a natureza não é só bonita. Um piolho não é
bonit, e é absolutamente natural.E nem no próprio corpo humano tudo é prazer.
Os terapeutas corporais gostam muito de lembrar, por exemplo, que o sistema
nervoso simpático é aquele que produz a tensão. Então a terapia corporal
simpatiza, digamos com o parassimpático, que é o da expansão. Agora diga-me:
o sistema simpático é anti-natural? E tensão em certos casos não é uma
defesa saudável? E natural?
Esse endeusamento da natureza humana, do natural, desenvolve ainda um
outro mito. O mito de que existe uma natureza humana que é certa. O que é uma
coisa muito normativa: você tem que ser deste jeito, o resto é desvio, e os
desvios devem ser evitados para que a natureza humana brilhe em seu apogeu.
Ninguém afirma, mas fica no ar que existe um corpo melhor que outro, um corpo
normal, de uma natureza normal, de um estilo de vida normal. Existe um certo,
onde precisa se enquadrar. Então, o corpo bom é aquele que... O braço bom é
aquele que... Pulmão bom é aquele que... Será, pulmão bom pra quê? O pulmão
do alpinista não será um desperdício no corpo do relojoeiro? E para que o
alpinista precisa da paciência do relojoeiro? Então um corpo é bom pra quê?
Ora, a natureza humana é também uma visão ideológica. É uma visão retrógrada,
normativa, autoritária. Ou só é autoritário o normativo dos outros?, não o
de alguns terapeutas corporais, que tem em si a súmula de toda a ciência
ocidental e da sabedoria do oriente?
No fundo, o que há por trás disso é a velha busca do paraíso perdido,
da natureza pura, antes das deformações sociais. Em tempos de grandes
dificuldades, é especialmente fascinante este mito da volta a algum paraíso. A
diferença é que agora, em certas terapias corporais, o mito tem jeito de ciência.
É um mito com jeito de ciência, de realidade. Porque o terapeuta corporal,
desde Reich tem um grande apego ao concreto – pelo corpo, pelo gesto, pela
postura. O diagnóstico é feito no concreto. É no perceptível, é no visível,
no palpável que se acompanha a mudança do paciente. É no aparecimento dos
movimentos orgásticos e na recuperação da potência orgástica que se percebe
a cura. É sempre concreto, sempre corpo nas três etapas: diagnóstico,
processo e cura. Fica tudo concentrado no concreto. Tudo se passa como se o
universo simbólico, que é especificamente humano, desaparecesse. Como se no
faz-de-conta, as analogias, os sinais, os símbolos complicados ( como os mitos,
por exemplo) não existissem mais no mundo, e nada significassem. Um sonho em
que o paciente passa por sensações de altos e baixos será concretamente visto
como medo de altura ou sensação de queda, não fantasias de céu ou de
infinito.
Ora, essa fixação na concretitude é também ela, uma fantasia, porque
é claro que o corpo que nós estamos trabalhando também é um corpo simbólico.
A própria idéia da natureza humana é uma coisa altamente simbólica – por
acaso ela existe? Mas a fantasia de certa terapia corporal, é que estamos
trabalhando, só com o concreto, o organismo, diretamente, enquanto os outros
trabalham a reorganização simbólica do paciente, o vago mundo das palavras,
do qual o corpo vagamente faz parte. Quero deixar claro, que esta não é uma
posição contra a terapia corporal e repito que o corpo é também uma porta útil
para o trabalho com o mundo do inconsciente. Eu não acredito é nos mitos da
terapia corporal. No mito do corpo concreto. Pois o corpo concreto é simbólico
– nós não trabalhamos com o orgânico, não somos médicos, fisioterapeutas
ou fisiologistas -, não o trabalhamos com o corpo erótico, social, econômico,
produtivo, este é o nosso corpo. Não acredito também no mito da natureza
humana como paraíso perdido. Nem que a terapia corporal seja, como se diz, mais
rápida do que as outras. É, isso sim, uma psicoterapia eficiente, completa,
quando bem feita.
A vida, depois das catorze voltas
com o olho
Mas nada de arrebatamentos. Como terapeuta corporal, o meu objetivo é o
de todas as terapias. Eu quero diminuir o sofrimento, aumentar o
auto-conhecimento, possibilitar a auto-regulação do paciente. Esta capacidade
de maior adequação é, aliás, uma característica do ser humano social, solidário,
capaz de trabalhar junto, capaz de se auto-regular, mas que também se deixa
regular pelo outro.
Os terapeutas corporais mostram-se bastante descuidados em seu discurso,
em suas elaborações teóricas. Ora é preciso refletir sobre os fatos, porque
o discurso é a expressão de uma atitude e reflui sobre a técnica empregada,
na maneira como se trabalha. Os textos sobre terapia corporal são descuidados e
os autores freqüentemente não observam, eles descobrem. Estão sempre
perplexos diante do óbvio que nunca tinha sido visto antes. O resultado é uma
sucessão de descobertas e uma ausência de reflexão teórica. Uma análise
mais cuidadosa destes textos indica apelos normativos, uma aceitação
incondicional de pressupostos muito discutíveis como, por exemplo, a excelência
do natural, a utilidade da regressão, o saudável da auto-regulação, etc.
Gostaria que ficasse claro que não estou falando do que acontece nas
sessões em si. Refiro-me a livros, aos artigos e às poucas sessões públicas
a que assisti. Estou falando daquela fé absoluta que os textos de terapia
corporal demonstram, de que vão liberar, libertar. Uma certeza absoluta de que
seguindo certa técnica – liberando anéis, melhorando as formas de expressão
das emoções, tirando a rigidez, as esteriotipias corporais – você realmente
vai-se auto-regular, vai ser o autor da sua própria existência, agente único
de si próprio.
É claro que todo profissional precisa acreditar no seu trabalho, sentir
que de fato está ajudando o paciente a melhorar a sua percepção do mundo
interno e externo. Isso é muito diferente de você dizer: vou melhorar a sua
percepção do mundo fazendo você da catorze voltas com o olho. Quem dá
catorze voltas com o olho, enxerga a vida melhor. Isso é ser normativo e místico.
E este mal-entendido muito freqüente na terapia corporal. Nela, o terapeuta
trabalha com sinais e não com símbolos, como acontece nas outras formas de
terapia. O terapeuta corporal trabalha com sinais concretos: o corpo com tais
tipos de tensão é ruim. Se o paciente não dá tais ou tais tipos de
flexibilidade, não dá sinais concretos de mudança. Ora, isso é ter a fôrma
do certo, independente do desejo do paciente. Esse é o perigo, o terapeuta
corporal com um sinal físico. Não trabalha com a realidade simbólica do
paciente, que é pessoal, única de cada um.
E quando esta terapia, tão cheia de promessas, não dá certo? E se as
promessas de encontrar o paraíso através do corpo não são cumpridas? Bem, aí
a culpa é do paciente. Se você não melhorou, é porque não fez tudo
direitinho como eu queria. É porque você é muito resistente. E o paciente vai
embora, cheio de culpa, porque não fez as coisas direito, não chegou às
catorze voltas com o olho ou não conseguiu respirar como devia, vibrar como
devia, postar-se como o exigido.
Continuo acreditando que a terapia corporal é uma da melhores formas de
terapia. Mas ela é apenas um caminho, não pode se transformar numa religião,
com sinais físicos de salvação, com uma certeza tão absoluta de que o paraíso
perdido está logo ali no fim de alguns exercícios, numa natureza humana enfim
liberada, renascida.
Aqui
e agora.
No Brasil, em 1983?
Quero lembrar enfim que há
muito de pura ideologia em posições aparentemente científicas. Veja o
caso do aqui e agora. Viver no aqui e no agora é um dos grandes
sonhos da terapia corporal, e não só dela. Nada de viver no passado, nem no
futuro, mas no aqui e no agora: here and now! Ora, onde é que,
ideologicamente, poderia ter surgido este slogan? Num país hegemônico, é
claro. Na Roma hegemônica, na Inglaterra hegemônica ou nos Estados Unidos
hegemônico de hoje. Porque a pessoa ou a cultura que ainda não é hegemônica,
não está interessada em para no aqui e no agora, ela quer é continuar. Quando
alguém está em decadência, também não pensa em continuar. Quer dizer, o único
grupo interessado no aqui e no agora é que está no apogeu.
Ora, aqui e agora no Brasil, nós não estamos no apogeu. Para que queremos o
aqui e o agora? Para que a França, que está em decadência vai querer? Então
a gente engole um aqui e agora que não tem nada a ver com a nossa
realidade. Nos Estados Unidos tem sentido. Em 1950, 1960, eles estavam no auge.
Mas escute: e eu com isso?. Eu aqui no Brasil em 1983? Com o país do jeito que
está eu não quero o aqui e o agora, eu quero o amanhã. E a gente pega os slogans
dos outros com tranqüilidade, inocência, como se eles fossem destituídos de
ideologia. As coisas nunca surgem gratuitamente. As idéias de autogestão,
auto-realização, auto-regulação. Isso é próprio de lugares onde você tem
uma abundância fantástica, onde você não precisa do esforço comunitário
para conseguir nada. Agora, num lugar onde existe escassez, o trabalho tem que
ser de solidariedade. Nossa realidade atual não é de abundância. E eu tenho
muito interesse no futuro. O aqui e o agora do Brasil são muito opressivos. O
“here and now” pode ter muito sentido para um espaço, um grupo e um momento
determinado. E longe de mim dizer que tudo o que é americano é ruim. O que é
americano é bom para eles, algumas coisa são boas para nós, inclusive a
terapia corporal, uma vez limpa de suas próprias mistificações.
Texto
retirado da Revista Psicologia Atual, Ano VI, nº 33, pgs. 29-31.
Ana Verônica Mautner é psicóloga
clínica, coordenadora da área de terapias de abordagem corporal no Instituto
Sedes Sapientiae, em São Paulo
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